Quando Cair o Verão & Outras Histórias, por Amelia Williams

Capa_Doctor Who - quando cair o verao.inddAcompanhar uma série de TV com mais de meio século de história tem suas vantagens e os fãs de Doctor Who entendem bem isso. Descobrir a série original ou se aventurar nos livros ou áudio books representa uma diversidade infindável de formas de acompanhar as narrativas do Doutor.

Em 2014, a editora Suma de Letras lançou, no Brasil, a coletânea de contos “Summer Falls”, com o título traduzido de “Quando cair o verão & Outras Histórias”. O que chama atenção aqui é que as tramas têm como autores os próprios personagens da série.

Amelia Williams, uma das companheiras do Doutor, ganha destaque logo na capa, como autora principal. Amy assina a introdução e o conto que dá título ao livro, “Quando cair o verão”. A publicação termina com uma espécie de extra intitulada “A garota que nunca cresceu”, nada menos que uma “rara entrevista com a reclusa autora”. Ouvir a voz de Amy Pond após se aventurar nos contos é um verdadeiro alívio para quem sente falta da personagem interpretada por Karen Gillan na TV.

No conto, a jovem Kate, em sua última semana de férias na litorânea Watchcombe, descobre uma misteriosa pintura chamada “O Senhor do Inverno”. Claro que objeto acaba se tornando um passaporte para algo que a personagem não esperava enfrentar.

Na sequência, “O Beijo do Anjo”, inspirado no episódio Angels Take Manhattan, traz Melody Malone como uma detetive que recebe a visita de um astro de cinema. Desta vez, a história é escrita a quatro mãos, uma parceria da própria River Song com Justin Richards – o escritor britânico que não é personagem e conta com uma extensa lista de livros publicados nos últimos 20 anos.

O livro é curtinho, nada mais que 188 páginas. Cada conto, dividido em capítulos rápidos, formam uma viagem leve pelo universo do Doutor. Como a narrativa desenvolvida apenas existe como ficção dentro da série, não é preciso conhecer o programa para obter conhecimentos prévios – mas claro que tudo fica mais legal quando visualizamos alguns personagens conhecidos da TV e identificamos as formas de referências que o autor Justin Richards escolheu.

Apesar do conto que dá título ao livro ser o que mais chama atenção no primeiro momento, é o mais mediano dos três. O que acontece, na verdade, é um desenvolvimento bem acertado em cada história. Mesmo que não seja uma leitura essencial, é o item que todo colecionador de Doctor Who precisa ter na estante.

Resenha publicada também no Mix de Séries.

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Outros Tempos, de Leonardo Nóbrega

Ninguém conhece realmente as pessoas, não conhecemos nem a nós mesmos. Conhecemos somente o que está na superfície e os outros conhecem, quase sempre, apenas o que permitimos”. (pág. 152)

Publicação independente, 2013.
Premius Editora, 2013.

Nascido na década de 1960, Leonardo Nóbrega parece o tipo nostálgico que sente falta daquilo que não viveu. “Outros Tempos”, seu romance de estreia, já começa descrevendo ações, personagens e momentos como se o autor tivesse puxando de sua memória afetiva. O estilo é uma espécie de aviso: pode chegar junto, leitor, no aconchego dessas páginas nós vamos voltar no tempo.

Com a capital do Ceará como plano de fundo, retornamos, dos dias atuais, para 1942. O jornalista Ulisses, em uma cidade com ares de Paris, acaba se envolvendo em uma série de eventos relacionados à Segunda Guerra Mundial, com, até mesmo, uma célula nazista instalada no Brasil.

A narrativa é uma aventura pela Fortaleza antiga, passando por lugares conhecidos por cearenses e revisitando a História. Nóbrega lembra de uma Praça dos Mártires divida por classes sociais, além de servir como palco para execuções na Confederação do Equador. A Praça do Ferreira, um dos principais cartões postais, também aparece de forma recorrente, já que é endereço do Diário Alencarino, local de trabalho do protagonista.

A trama começa devagar, situando o leitor no contexto da época, e se desenvolve com mais intensidade no meio do caminho para o clímax. A partir de então, o autor demonstra maior domínio pelo plot que propôs no início, apelando, no bom sentido, para a memória afetiva do cearense. Um dos exemplos mais fortes é o caso do Cão de Itaoca, lenda urbana passada por gerações. Se por um lado isso ajuda a desencadear a empatia do leitor conterrâneo, pode não afetar da mesma forma outros públicos, mas ajuda a apresentar essas particularidades.

Descobrir aos poucos como o escritor trabalha temas como espionagem e o contexto de guerra em terras alencarinas é o mais divertido, diga-se de passagem. A dinâmica escolhida com os capítulos curtos ajuda a segurar o leitor como quem domina o tempo que rege o enredo. Dessa forma, Nóbrega mostra que há tempo para tudo. Até para descobrir quem as pessoas realmente são.

Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick

Andróides sonham com ovelas elétricas
Editora Aleph, 2014.

“A realidade é aquilo que, quando você para de acreditar, não desaparece”. A frase de Philip K. Dick não é uma passagem do livro que deu origem ao filme Blade Runner – O Caçador de Androides, mas cabe perfeitamente no tipo de reflexão que a obra proporciona quando lembramos que o futuro especulativo nada mais é que a representação da realidade.

Publicado em 1968, “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?” acompanha Rick Deckard, o caçador de recompensas que, diferentemente da maioria da população, sobreviveu à guerra Terminus e permaneceu no planeta ao invés de emigrar para colônias interplanetárias. Os remanescentes são divididos em Normais (considerados relativamente saudáveis) e Especiais (aqueles que, biologicamente, não são aceitos pela sociedade) e vivem em uma Terra em condições desfavoráveis, devido à poeira radioativa que dizimou diversas espécies de vida.

A narrativa desponta a partir do desejo do protagonista em trocar sua ovelha elétrica, um objeto popular, por um animal verdadeiro, quando estes se tornaram símbolo de status após a devastação. Neste período, um trabalho para caçar androides surge como uma possibilidade para Deckard melhorar de vida financeiramente, se misturando a uma busca que justifique sua própria existência.

É fácil, na narrativa de PKD, associar acontecimentos à realidade, quando, por exemplo, Rick passa a questionar a moralidade de seu próprio trabalho e a representatividade dessas ações em sua vida. Em essência, a reflexão proposta pelo autor, ao comparar as inteligentes máquinas com seres humanos e fazendo contra ponto entre os animais autênticos com a legitimidade que os elétricos alcançam no desenvolvimento, mapeia a discussão acerca da condição humana.

A edição lançada ano passado pela editora Aleph traz, como bônus, a última entrevista com o autor que morreu aos 53 anos, meses antes da estreia da adaptação cinematográfica do livro. Mesmo que o romance seja uma leitura tão introspectiva e questionadora quanto agradável, a conversa com Philip K. Dick encerra a publicação como uma porrada de quem se percebe menor que a própria obra.