A televisão brasileira em verbetes

Resultado de uma pesquisa que começou como hobby ainda na década de 1990, o livro Dicionário da Televisão Brasileira passeia por mais de 60 anos de história de um dos veículos mais importantes do Brasil. Escrito pelo jornalista Thell de Castro, traz 3.200 verbetes que explicam fatos memoráveis da história do televisor no País.

tv brEspecialista em tevê, Thell edita o site TV História e é colunista do Notícias da TV, do portal UOL. O livro surgiu do ato adolescente de catalogar toda informação relacionada à indústria. “Costumo dizer que é o trabalho de uma vida inteira”, diz sobre a pesquisa que virou objeto de estudo acadêmico em 2001, quando entrou no Jornalismo.

Veio então o processo de verificação cruzando registros de jornais antigos. O esforço foi necessário para trazer a informação mais precisa possível, desde o TV na Taba, primeiro programa a ir ao ar pela TV Tupi, até a novela Sete Vidas (2015), da Rede Globo.

A publicação traz casos curiosos como a produção de Anastácia, a Mulher Sem Destino (1967), que precisou mudar o rumo narrativo na metade dos capítulos. Além de formatos que permanecem no ar até hoje, como A Praça da Alegria, de Manuel de Nóbrega (1913-1976). Renasceu em 1987 na Band, quando a emissora chamou Carlos Alberto de Nóbrega para retomar o formato criado por seu pai.

A TV hoje

Castro comenta que a indústria televisiva passa por um momento de adaptação. Ele afirma que as emissoras mantêm cada vez menos público cativo, aquele que se reunia na sala de casa para assistir aos programas, como acontecia nos anos 1970 e 80. Mesmo assim, considera a tevê brasileira uma das mais “criativas” do mundo.

Para ele, é preciso inovar no modo de contar histórias, mas deve ser feito com cuidado. “Os últimos grandes fenômenos da teledramaturgia foram tramas tradicionais”, lembrando de Avenida Brasil (2012) e Senhora do Destino (2004). “O público ainda gosta de um bom e velho novelão”.

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Após dez anos de carreira, banda cearense prepara documentário

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Alex Costa / Divulgação

As possibilidades para contar histórias são muitas. Na música, as letras, vídeos e performances ajudam. O cenário gótico que o diga. Aliados à estética “sombria” que o estilo inevitavelmente traz, artistas usam essa carga dramática a seu favor na narrativa.

Para passear pela própria linha do tempo, a banda cearense Plastique Noir, uma das mais respeitadas no subgênero musical, prepara o documentário “Imaginary Walls“. Previsto para estrear entre o final de 2015 e o início de 2016, o filme é uma realização da Filmerama Produções.

O longa-metragem é a forma que o grupo encontrou de comemorar os dez anos de carreira em grande estilo. Com três álbuns lançados, mudanças na formação e até convites para se apresentar no exterior, a banda de Airton S., vocalista, e dos irmãos Danyel Fernandes (guitarra) e Deivyson Teixeira (baixo) tem muita história para contar.

Dirigido por Daniel Aragão, “Imaginary Walls” vai ganhar uma premiere especial para o público alencarino no Cineteatro São Luiz Fortaleza. Depois disso, o filme vai entrar em circuito de festivais.

Airton S. conta que o material que permeia momentos cruciais da trajetória, seja em estúdio, palco e bastidores, estava sendo guardado durante anos. “Uma coisa curiosa é que eu batia muito de frente com o Danyel (Fernandes, guitarrista) quanto a isso, porque ele ‘se trancava’ com esse ouro todo e eu sempre assumia uma atitude do tipo ‘vamos liberar tudo na internet’”, afirma. “Graças ao Danyel, nós temos esse material. Ele estava certo o tempo todo e eu errado”, brinca.

O fundador do grupo também se responsabilizou pela pré-roteirização do projeto, “a fim de traçar as direções dos acontecimentos e suas consequências”, assinalando pessoas-chave para a história da Plastique. Entre os entrevistados, o produtor Rafael Lucena e o DJ Dado Pinheiro, que abraçou a banda quando eles ainda nem tinham feito a estréia nos palcos.

Trajetória

Márcio Benevides, ex-guitarrista e membro co-fundador, diz que revisitar a trajetória é “vital e justo”. Para ele, o registro é válido por evidenciar o “dilema” de uma banda que sentiu na pele que a busca pelo profissionalismo “é muito mais ralação e organização que falso glamour”.

“É também um desejo franco de enterrar as mágoas do passado. É um ‘eterno retorno’ muito bacana de se vivenciar”, afirma. O retorno citado por Márcio ocorre na mesma época da estreia do Black Knight Freqüency, novo projeto do músico.

Cena gótica

De acordo com Daniel Aragão, responsável pela direção do longa-metragem, o doc está passando por uma nova montagem e deve ser finalizado nas próximas semanas. Ele afirma que além de passear pela trajetória do grupo, o filme abrange a importância da cena gótica no Brasil.

Aragão reconhece o potencial de comercialização para fora do país e diz que essa relação com a cultura no exterior está sendo pensada. “O filme aborda a musicalidade, e traz muito da estética do suspense e do cinema expressionista, tão valorizado pela sub-cultura gótica”, comenta. “Embora pequeno no Brasil, o movimento tem público fiel no exterior, principalmente na Europa. Acredito que esse é o ponto forte do projeto”.

No Ceará, escolas da rede pública recebem projeto de incentivo à leitura

Em Fortaleza, o projeto “Mais Leitura Ceará” surge com o objetivo de fazer a diferença na periferia. Realizado em duas escolas de bairros com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), traz palestras, oficinas e dinâmicas temáticas de incentivo à leitura.

A programação teve início na Escola Municipal Professor Américo Barreira, no bairro Genibaú, no dia 11 de agosto. Na ocasião, Ednusa Marques, diretora da instituição de ensino, reconheceu a importância do incentivo ao hábito, “que ainda é defasado”. Hoje (20) é a vez da Escola de Ensino Fundamental e Médio Antonieta Siqueira, no Pici, abrir as portas para o projeto.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Aprovado no edital “Nossa Ação Muda a Cidade – Protagonismo Juvenil”, da Prefeitura de Fortaleza, é iniciativa de Lucas Almeida, 21. “Inicialmente seria apenas a teoria, mas percebi que não era o suficiente”, diz o estudante de jornalismo.

A programação conta com atividades lúdicas e dinâmicas para as crianças, além de 12 oficinas para alunos de ensino fundamental, médio e EJA. “Tudo foi pensado no sentido de que é preciso repassar conteúdo atraente”, complementa o proponente.

Há também dois concursos para “estimular o desenvolvimento da escrita, da criatividade e da reflexão social”, além de servir como fomento para potenciais novos talentos. No primeiro, os alunos poderão escolher um, dentre cerca de 200 livros que serão doados a cada escola, para produzir uma resenha escrita e apresentação oral. No segundo, os 20 melhores textos de escrita criativa serão publicados em um livro.

Rodrigo Silva, 16, diz que o projeto traz conteúdo de forma envolvente, diferentemente das aulas que seguem “a mesma metodologia de sempre”. O aluno da Escola Américo Barreira conta que os assuntos tratados na palestra são transmitidos “como uma arte”.

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Imagem: Rubens Rodrigues

Emerson Bastos ministrou a palestra “Poesia e Publicação Impressa Independente”, no qual trabalha a diferenciação de poesia, poema e arte visual, além de fazer uma passagem pela história de publicações independentes, como os fanzines. “A intenção é incentivar tanto a leitura quanto a escrita”, diz o poeta sobre sua participação no evento.

O estímulo funciona. No final de uma palestra no turno da tarde, Bastos recebeu um aluno que compartilhou um poema escrito a próprio punho com o poeta. Já na Contação de Histórias, que ocorreu na sequência com a atriz Natália Falcão, houve interesse de alunas por aulas de teatro.

Monica Mesquita, professora da turma do 6º ano da escola localizada no bairro Genibaú, comenta que o incentivo à leitura “é um trabalho de formiguinha”, que deve ser feito “devagar e sempre”. Monica afirma ainda que “o projeto veio complementar o trabalho educativo enriquecendo as experiências de leitura dos alunos”.

A leitura que bate à porta

Assim como qualquer hábito preservado no lazer, a leitura é uma escolha. A seleção é feita na livraria, na biblioteca da escola e até na estante do amigo. Os chamados clubes do livro, que viraram febre nos anos 1980, são uma opção na hora de definir a próxima narrativa a acompanhar.

Quem cresceu na época deve lembrar do Círculo do Livro, popular parceria das editoras Abril e Bertelsmann. A sociedade era bem definida – só entrava quem fosse indicado por algum sócio. Durante os anos 80, o Círculo chegou a divulgar o número de 800 mil afiliados que recebiam o catálogo e os livros escolhidos pelos Correios. Infelizmente, o serviço declinou com a queda das vendas e foi encerrado no fim da década de 90.

Nos últimos anos, os clubes de compras retornaram ao mercado com propostas diferenciadas. Leiturinha, o primeiro clube de assinantes de livros infantis do Brasil, já chega a mais de 5 mil crianças. O clube oferece as opções de livros físico e digital.

Leitura como experiência

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Em 2013, três estudantes de administração resolveram apostar na paixão por livros e a vontade de empreender. Assim surgiu TAG Livros, que entrou no mercado em agosto do ano passado. Os sócios Arthur Dambros (23), Gustavo Lembert (23) e Tomás Susin dos Santos (25), contam que sugerir livros já era algo comum dentre as amizades. “Decidimos tornar esse sistema de indicação em um clube, mas que não se resumisse a isso”, lembra Tomás. “Queríamos investir, também, na experiência de leitura”.

O clube já conta com cerca de 550 associados, chegando a 24 estados brasileiros – foram duzentos novos assinantes só nos últimos três meses. O crescimento se explica na proposta do projeto. Os livros são escolhidos por uma espécie de curadoria, feita por pessoas que são referência no cenário intelectual. Nomes como Frei Betto, Luiz Felipe Pondé e Mario Prata já indicaram seus livros de cabeceira.

A caixinha, que chega mensalmente pelos Correios, vem com o livro, mimo temático e uma revista com informações complementares. Ah, e tem mais um detalhe: o livro é surpresa!

Luciana Trojahn, 49, diz que assinou o TAG pela possibilidade de ter em sua própria biblioteca, livros de autores que não conhecia e títulos que não compraria por escolha própria. “Percebi que sempre buscava livros que me eram familiares, perdendo a riqueza de perspectiva de autores e estilos diferentes”. A bancária, que foi assinante do extinto Clube do Livro, conta que a “surpresa” na hora de abrir a caixa e a “delicadeza nos detalhes” tornam a experiência ainda melhor.

Pergunta do leitor

Por se tratar de um clube mensal, essa periodicidade não atrapalha na escolha de livros maiores e mais densos? (Rodrigo Mendes, 23, advogado. De Fortaleza, CE)

Faz alguns dias, recebemos a mensagem de uma associada chamada Denise. Ela disse o seguinte: “Ainda não chegou minha caixinha de dose mensal de paz, desassossego e alienação seletiva consciente. Acho que a TAG tem que mudar a periodicidade das remessas para quinzenal. Não! Semanal.” Claro que aumentar a frequência seria um exagero, mas acreditamos que o envio mensal esteja sendo adequado aos nossos associados – isso representa doze livros por ano. Se você colocá-los lado a lado, verá que não é tanta coisa assim. Além do mais, um dos grandes propósitos da TAG é a construção de uma biblioteca pessoal de qualidade. Não somos um check list de leituras obrigatórias. Se não tiver tempo para ler, ou quiser dar preferência ao outras leituras, não há problemas. O livro permanecerá em sua biblioteca até que o momento dele chegue!” (Arthur Dambros)

Projeto ‘Ninho de Livro’ chega a Fortaleza

Ninho instalado no Passeio Público - Rua Floriano Peixoto, 90. Imagem: Lucas Ameida/Instagram
Ninho instalado no Passeio Público – Rua Floriano Peixoto, 90. Imagem: Lucas Ameida/Instagram

Leitores fiéis costumam ter sempre um livro nas mãos. Capaz até de ter outro na mochila só para não correr o risco de ficar sem o companheiro contador de histórias. Se a leitura costuma ser um hábito solitário, agora ele ganha um empurrãozinho para incentivar a troca voluntária desses presentes – quase como um grande amigo secreto ocupando espaços públicos.

O projeto “Ninho de Livro” chega ao Ceará e consiste basicamente em pegar, na “casinha”, o título que gostou e deixar aquele que quer passar para frente. O lar dos passarinhos de papel, com espaço para 30 volumes, chega a dez pontos da capital alencarina. Instalados em locais estratégicos, como nas avenidas mais movimentadas de Fortaleza, terminal de ônibus (Papicu) e o calçadão da Av. Beira-Mar.

As idealizadoras são Myrtes Mattos, 33, e Renata Tasca, 29, sócias da Satrapia, agência de benfeitorias para cidades do Brasil. A proposta nasceu no Rio de Janeiro e foi inaugurado na comunidade do Vidigal, com a presença da escritora Thalita Rebouças, em fevereiro deste ano. Lá também são dez casinhas espalhadas pela cidade.

Filha de cearense, Renata Tasca diz que o que motivou a criação do projeto foi a vontade de ajudar a “democratizar” o acesso à leitura. Para a carioca, é importante que as pessoas abracem o conceito de colaboração. “Queremos que o público entenda que os ninhos não são nossos, e sim de todos”.

No Instagram, usuários já repercutem a iniciativa. Natalia Serafim, 27, que transita pela Av. Santos Dumont diariamente – um dos endereços da casinha, nota a adesão das pessoas ao projeto. A socióloga relata que, ainda no primeiro dia, deixou uma coleção de clássicos da literatura e, quando voltou ao local, “os livros haviam sido trocados”. Lucas Almeida, 21, diz ter ficado “encantado pelo propósito”. Para o estudante de jornalismo, é importante que existam cada vez mais projetos de fomento à leitura.

Camila Gomes de Carvalho, 25, percebe a ideia como uma forma “criativa e funcional” de repassar aquele livro parado na estante para novos leitores. “Lembrei de um projeto parecido em Brasília”, comenta. “Lá são pequenas bibliotecas nos pontos de ônibus. As pessoas deixavam até apostilas de estudo”. Para a publicitária, a importância de livros mais acessíveis está no estímulo à prática da leitura.

Levar o projeto para áreas mais carentes de Fortaleza é uma vontade da agência de benfeitorias, porém ainda não existe patrocínio para realizar a instalação em outros lugares.