Gero Camilo discute machismo, sexualidade e a sobrevivência da arte em espetáculos

O ator cearense vai apresentar “Aldeotas”, nos próximos dias 24 e 25, e “Caminham nus empoeirados”, no dia 26. Ambos na Caixa Cultural

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Imagem: Karina Ades

Quando dois amigos de infância se reencontram, fragmentos de memórias e experiências adormecidas são relembradas. É dessa proposta que parte “Aldeotas“, com texto do ator, poeta, dramaturgo, cantor e compositor cearense Gero Camilo e direção de Cristiane Paoli Quito.

O espetáculo fará parte do projeto Em Cartaz: Gero Camilo, que começa no próximo dia 24, na Caixa Cultural Fortaleza. A curta temporada de três dias traz ainda a peça inédita “Caminham nus empoeirados“, escrita por Camilo, que divide a direção com a portuguesa Luisa Pinto. O texto é inspirado no livro “A Macaúba da Terra”, também de autoria do cearense.

A narrativa da plural “Aldeotas”, que se passa na pequena cidade fictícia Coti das Fuças, foge do senso comum que o nome pode sugerir. “É uma peça muito universal. (Coti das Fuças) pode ser no Ceará, mas pode ser também em qualquer lugar”, explica. “Porque fala de memórias, de experiências e variações culturais. Tem muito sentimento de amor, descoberta, liberdade”, antecipa o ator.

Gero diz que o texto traz muito da sua própria memória afetiva, mas que trata de temas universais. “São experiências que o ser humano passa em qualquer lugar. É um pouco da minha biografia, da sua e de qualquer pessoa”, aponta. “Tem muito dessa experiência de Interior, onde a violência não é muito presente e as pessoas conseguem viver as ruas”.

“A peça trata das descobertas, do machismo, da homossexualidade. O público se identifica porque esses sentimentos ainda estão muito impregnados no Interior”, continua. Em “Aldeotas”, o artista debate temas muito presentes no ambiente familiar, como a autoridade dos pais em contraponto ao desejo de liberdade dos filhos e a relação da religião no contexto moral da sociedade. “Nada mais atual do que discutir essas questões. A arte expõe e, a partir daí, o público digere de acordo com a experiência de cada um”.

Conexão Brasil-Portugal

Com tons de comédia e crítica social, a montagem “Caminham nus empoeirados” narra a história de dois atores que abandonam a companhia de teatro para seguir estrada juntos. O espetáculo nasceu do convite da diretora Luisa Pinto para montar um texto em Portugal. Entre agosto e outubro do ano passado, eles viajaram por Atenas, Bruxelas, Paris e Praga para pesquisar artistas populares, montaram e apresentaram curta temporada em Portugal.

Assim como em “Aldeotas”, Gero contracena com Victor Mendes. O ator, que trabalha na série “Psi”, da HBO, escrita por Contardo Calligaris, assumiu o papel após a saída do ator português João Costa.

Até agosto, Camilo e Mendes devem estrear espetáculo inédito sobre os 100 anos do samba. E Gero Camilo adianta: a história se passa no dia do golpe de 1964, que instaurou uma ditadura militar no Brasil.

Programação

Em cartaz: Gero Camilo

Os ingressos poderão ser adquiridos a partir do próximo dia 23, às 10 horas. Cada pessoa poderá comprar um par de ingressos dos dois espetáculos. Após a apresentação no segundo dia de espetáculo, os atores participarão de roda de conversa com o público.

Aldeotas
Data: 24 e 25 de junho de 2016
Horário: 20h
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 105 minutos
Ingressos: R$ 10 (inteira)

Caminham nus empoeirados
Data: 26 de junho de 2016
Horário: 17h e 19h
Classificação indicativa: 12 anos
Duração: 75 minutos
Ingressos: R$ 10 (inteira)

Local: Caixa Cultural Fortaleza
Endereço: Av. Pessoa Anta, 287, Praia de Iracema

Bilheteria CAIXA Cultural Fortaleza: (85) 3453-2770

Documentário aborda avanços da neurociência na primeira infância

O COmeço da Vida - poster

“Um menino nasceu – o mundo tornou a começar”.

A frase de Guimarães Rosa, documentada no clássico Grande Sertão Veredas, aponta para a narrativa de O Começo da Vida, documentário que estreia nesta terça-feira, 10, no Cineteatro São Luiz.

Baseado nos avanços da neurociência sobre a primeira infância, período que aporta da gestação aos seis anos, o doc constata que os bebês se desenvolvem com a combinação entre genética e as relações culturais construídas ao seu redor.

A cineasta Estela Renner, de 42 anos, diz que o filme parte do princípio de que a criança “não é uma página em branco” que deve ser preenchida pelos adultos. “Ela já nasce capaz de investigar o mundo e ela investiga o mundo”, diz. “A criança já nasce conhecendo a voz da mãe. Todo esse conhecimento torna ela uma pessoa inovadora e criativa, e não só um objeto para olhar com cuidado”.

O filme tem como mote o desenvolvimento infantil, já tratado em outros momentos de sua filmografia, vide Muito Além do Peso (2012) e Criança, a Alma do Negócio (2008), que aborda os malefícios da publicidade infantil. A produção da Maria Farinha Filmes, da qual Estela é sócia, surgiu do convite feito pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Fundação Bernard Van Leer e Instituto Alana.

Estela entende que a relação dos pais com a criança não deve ser “apenas de doação”, mas de transformação. “Todo mundo se transforma. É um momento muito importante para a criança e para nós porque é uma chance de inovação social”, explica.

“Acredito que, mais do que nunca, nós precisamos lançar no mundo novos traços culturais e este é um filme que mostra isso desde o comecinho da vida”, continua. “Em cada criança existe um mundo em potencial. Cuidar dessa criança é cuidar do mundo, mas não para o futuro, e sim para o presente”.

A diretora lembra que a escolha dos entrevistados foi “rigorosa”. A produção visitou especialistas e famílias de diversas culturas, etnias e classes sociais do Brasil, Índia, Canadá, China, Quênia, Itália, Argentina, Estados Unidos e França.

“Não queremos um filme para ficar datado, mas para ser referência”, diz. “É quase uma aula inaugural para a sociedade. No decorrer do processo nós percebemos que não estávamos fazendo um filme só para os pais, mas para a humanidade”.

No Ceará, o lançamento do longa acontece por meio do Governo do Estado e do Instituto da Infância (Ifan).

Serviço

Cinema

Estreia do documentário “O Começo da Vida”
Terça-feira, 10 de maio, a partir das 14h30min (14h30 – Recepção | 15h – Abertura | 15h30 – Exibição do longa-metragem | 17h – Encerramento com diretora do filme)
Cineteatro São Luiz (rua Major Facundo, 500, Centro – Fortaleza)

Download

O filme estará disponível no VideoCamp.com a partir do próximo dia 24. A plataforma online reúne filmes inspiradores a partir de causas sociais.

As Três Travestis de Caetano

“Três travestis traçam perfis na praça. Lápis e giz, boca e nariz, fumaça”.

Lembrando a música de Caetano, três atores cantam histórias sobre o dito universo trans – travestis, transexuais e transformistas. Com direção do ator e dramaturgo Silvero Pereira, o espetáculo cênico-musical traz histórias de identidade, solidão, afeto, violência e religião.

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Imagem: Fernanda Moreira

No novo projeto do Coletivo As Travestidas, Silvero dá vida ao seu alter ego Gisele Almodovar, e canta ao lado de Rodrigo Ferrera, a Mulher Barbada, e George Hudson, no coletivo desde setembro do ano passado, como Betha Houston.

“Ainda existem discussões necessárias sobre esse universo”, diz Silvero, lembrando que o Coletivo já realizou oito trabalhos na temática trans. “A sociedade ainda não perdeu o estigma da marginal e da caricatura para essas pessoas e nosso objetivo é, através da arte, mudar esses pré conceitos”

Em entrevista ao Repórter Entre Linhas, ele fala sobre teatro, representatividade, e arte como objeto de transformação. “A arte não precisa de nada. Ela pode ser o que quiser, desde que tenha propósito, convicção, desejo e prazer em fazer”, justifica. “Ela pode ser de entretenimento, comercial , como pode ser de questão social. O importante é fazer, mas fazer bem”.

Tratar da sexualidade no palco se tornou mais recorrente depois de Uma Flor de Dama. Foi um divisor de águas?

Silvero: Sim. Acho que As Travestidas construiu uma linguagem no teatro pra falar sobre esse assunto. Isso porque nós aprofundamos e construímos estética atrelada a conhecimento e causa. Logo, hoje, 12 anos depois de As Travestidas, Fortaleza tem mais interesse nesse tipo de discussão e arte, além de respeitar esses trabalhos.

Como você avalia o teatro que vem sendo produzido no Ceará?

Silvero: Acho que Fortaleza tem um dos teatros mais diversos esteticamente e pulsante no nosso país. Construímos um teatro em meio a adversidade das políticas públicas e da falta de espaço, mas ainda assim um teatro vibrante e bonito, por somos guerreiros e não passivos ao caos atual dos nossos gestores.

Você saiu de Mombaça aos 13 anos. Você chegou a fazer teatro lá?

Silvero: Só fiz teatro quando cheguei em Fortaleza. Só agora Mombaça começa a pensar em arte. Minha infância foi marcada por uma criança órfã de teatro. Durante muito tempo Mombaça foi um buraco negro na história do teatro cearense. Espero que esse quadro mude.

O Interior ainda hoje tem muitas histórias de opressão sexual. Você viveu muito disso?

Silvero: Acredito que a Capital tem muito mais opressão que o Interior. A questão é que na capital as coisas são mais mascaradas. Claro que no interior ainda existe violência e intolerância, mas isso vem mudando.

Como você percebe seu papel na representatividade LGBTT além da arte?

Silvero: A arte é ofício e um canal para questionar e provocar a sociedade. Acredito nesse lugar de transformação através da arte por ser um lugar que toca o íntimo das pessoas e as aproxima.

BR Trans ganhou força nas premiações nacionais e agora vai para fora do Brasil. Qual a importância de representar tanto o público LGBTT quanto seu Estado?

Silvero: O Brasil precisa abrir sua cabeça, é preciso mostrar o nosso país como ele é de verdade para enxergarmos a violência existente e lutar contra esse quadro. Temos um país lindo em pessoas e natureza, mas nossa sociedade, em sua maioria , ainda é violenta e cruel. É preciso mostrar essa face diante do espelho para se reconhecer e mudar.

Serviço
Três Travestis
Dias 3 e 4 de maio, às 20 horas
Theatro José de Alencar (rua Liberato Barroso, 525 – Centro)
R$ 20 / 10

Komboteca viaja o Brasil e ocupa espaços públicos com poesia

Itnerância Poética
Imagem: Reprodução / Facebook Itinerância Poética

Uma komboteca como ponto de encontro e valorização da cultura. É com esse princípio que o projeto Itinerância Poética roda o Brasil. Em Fortaleza há três meses, o veículo repleto de livros foi parte da Feira Índice, na Maloca Dragão 2016, festival que reúne música, teatro, cinema e feira literária.

Criado pelo poeta “andarilho” Guilherme Salgado, de 31 anos, o movimento já passou por Minas Gerais, São Paulo e todos os Estados do Nordeste. “É o sonho viajar, encontrar outros poetas e aprimorar minha poesia”, disse o autor de Itinerância Poética (Editóra, 2013), Estirpe (Poesia Maloqueirista, 2014) e o livro-postal Poesia é Desenho (Editóra, 2016).

O projeto começou, há cerca de quatro anos, como forma de distribuir suas publicações. “Tinha uma primeira tiragem de um livro publicado de forma independente. Eram 300 ou 400 livros, e não tinha como circular”, conta. “Então surgiu aí, da necessidade de circulação do livro independente. A partir do primeiro livro, (o projeto) acabou virando um movimento. Foi adquirindo outros propósitos”.

Seu mais recente trabalho, Poesia é Desenho, é uma parceria com a artista-visual Ludmila Britto, de 34 anos. Professora do curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Ludmila começou a trocar ilustrações com a poesia de Guilherme por correspondência. “A gente começou a brincar e sete meses depois chegamos nesse resultado do Poesia é Desenho. Todas as obras aí são muito verdadeiras”, narra Salgado.

Ocupando o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura durante a Maloca, ele conta que qualquer rua, praça ou favela pode receber o projeto, que já realizou parceria com instituições educacionais. “A galera chega naturalmente. Está aberto a todos. A coisa é somar aos movimentos de ocupação dos espaços públicos que existem na cidade”. Guilherme revela que o público jovem, assim como os poetas, é quem mais dialoga e permanece.

O objetivo agora é viajar pelo Ceará. “Pelos planos… Como diz a poesia de um amigo meu, planos seguidos de enganos, seguidos de mais planos, seguidos de mais enganos. Tô planejando ir pra Aracati, depois Russas, Limoeiro, Cajazeiras e Cariri”.

“A poesia é o que me sustenta. Não só economicamente, mas ideologicamente, afetivamente”, revela. Quando perguntado quanto tempo permanece nos locais, ele não se atém aos limites. “Quem sabe? Depende da conjuntura da vida. A gente não tem governo sobre isso, não”.

Verónica Decide Morrer e a desmistificação da travesti

Verónica Decide Morrer Roxy Music
Reprodução / Clipe de “Roxy Music”

As noites de Fortaleza ficaram marcadas para quem viveu e ainda vive na cena alternativa da cidade. O caminho que parte do Centro para a Praia de Iracema, com a Catedral no percurso, está na urbanice por trás da música de Verónica Decide Morrer.

Narrando o “submundo das travestis de rua e amor”, o grupo queer lança o primeiro álbum de inéditas, escancara o preconceito e brada por empoderamento “sem soar panfletário”. O grupo punk rock/new wave tropical é formado pelos vocalistas Verónica Valenttino e Jonaz Sampaio, que assina a produção do disco ao lado do guitarrista Léo BreedLove. O baixista Eric Lennon e a baterista Vladya Mendes completam.

“O disco tem muito das nossas inquietações, da luta diária de ter que ser aceito. O mundo tá dando uma virada, mas ao invés de estar libertando as pessoas, está trazendo de volta a repressão”, conta BreedLove. “As letras também falam da Verónica como a personagem travesti, mas trazem os sentimentos reais dela. Ela representa tudo o que é a banda, a nossa vivência”.

Empoderamento

Verónica Valenttino conta que a banda vem se emponderando a cada dia. “É a figura de trans – não que eu me intitule assim, me intitulo Verónica – mas dentro dessa nomenclatura é preciso se organizar para conseguir os direitos no Brasil”, explica. “Tudo é conquistado”.

“A principal motivação é a gente conseguir desmistificar a imagem marginal da travesti. Hoje a gente tem travestis doutoras, mestras. E aí a gente tem travesti no rock and roll. As nossas lutas são políticas”, explica. “As portas não podem se fechar por conta da sexualidade. E dentro do meio a gente vai rompendo isso”.

Música urbana

Gravado em Fortaleza e no Rio de Janeiro, o disco homônimo de 10 faixas já teve os dois primeiros singles disponibilizados no soundcloud. “Roxy Music”, com clipe lançado no último dia 31 de janeiro, dois dias após a data mundial que celebra a visibilidade trans, aponta para a contradição de “estar na noite e não ter nada a perder” com a possibilidade de se perder nas ruas.

“Todos nós passamos a juventude entre o Benfica e a Praia de Iracema”, diz o guitarrista. “Era disso que a gente mais gostava. Ouvir rock and roll, ver show, gravar a cidade. Por isso formamos a banda”. Léo lembra de nomes fortes no imaginário alternativo que marcaram o início do grupo, como a extinta Dead Leaves e a gótica Plastique Noir. “Fortaleza também é meio gótica, tem muita luz e muita sombra”.

Influenciados pelo som oitentista de Blondie, Rita Lee e Metrô, os músicos classificam a banda como o resultado de um casamento entre Madonna, Bowie e Rolling Stones. “A gente toca um rock com suingue. É musica pra dançar, se divertir e refletir”.

Karina Buhr: “podemos começar por legalizar o aborto no Brasil”

Referência no movimento feminista, a artista baiana Karina Buhr trabalha a divulgação do político Selvática. O álbum, com participações de Elke Maravilha, Fernando Catatau e Edgard Scandurra, dá nome à personagem que, como uma guerreira indígena, recria o universo de violência em que vivem as mulheres. A capa do disco, em que ela, segurando uma lança Yanomami, mostra os seios, foi censurada pelo Facebook à época do lançamento.

Radicada no Recife desde os 8 anos de idade, mistura os ritmos em seus registros e confessa amor pelo Carnaval de Pernambuco. “Minhas maiores influências estão ali”, lembra. “Isso fica pra sempre. Posso fazer o barulho que for, no rock que for, isso sempre estará lá, faz parte de mim”. Karina apresenta o álbum nesta sexta-feira, 29, na Maloca Dragão 2016, em Fortaleza.

selvática1Selvática surge como um manifesto feminista. Em que momento você percebeu a necessidade de expressar isso?

Karina: Não é um manifesto, é um disco que tem no feminismo o tema central. A personagem selvática, que está na capa, que dá nome a uma música é quem guia. Criei o conceito disco a partir dessa personagem, ele se move a partir dela e em torno dela, foi desde o princípio. E dentro dessa guia falo sobre outras coisas. Inclusive, feminismo pra mim é sobre isso. Sobre poder falar sobre o que quiser, como na música Cerca de Prédio, que falo sobre especulação imobiliária, gentrificação.

Tem essa referência aos textos sagrados que tratam a mulher como uma representação do pecado. Ainda é muito forte essa ideia da mulher?

Karina: Não só como representação do pecado, mas também da pureza e principalmente da serviência e subordinação. Esse ‘ainda’ ainda vai durar muito. Está na base da cultura patriarcal, que é a que vivemos (em formatos diferentes, mas com essa base), no mundo inteiro. Sobre isso de ‘ideia da mulher’, não existe ‘a mulher’, mulheres são diferentes umas das outras, igualzinho como acontece com os homens. Essa distinção e esse destaque para ‘a mulher’ está no cerne de todo machismo, a ideia de que mulher é um ser outro, que o normal é ser homem.

O disco traz esse debate também na faixa Eu Sou o Monstro, mas outros temas sociais são abordados no álbum. Desde o começo do processo, foi intencional tratar desses assuntos?

Karina: Falo também de temas não sociais, a faixa Rimã é meio surrealista, se passa como num sonho, é poesia sem objetivo de denúncias. Dragão falo sobre obstáculos, Vela e Navalha é também mais surreal, um diálogo de ficção. Desperdiço-te-me é uma balada romântico depressiva. E aí tem os temas políticos fortes em Pic Nic, Esôfago (que fala de feminicídio), Cerca de Prédio, Conta Gotas (onde falo sobre imigrantes e ciganos), Alcunha de Ladrão, Eu sou um Monstro e Selvática. Sobre ser intencional, tudo que faço nos meus trabalhos é intencional.

karina e elke

Como você escolheu as participações da faixa Selvática?

Karina: Elke e Denise Assunção são duas figuras icônicas pra mim. Com Denise trabalhei no Teatro Oficina, na peça As Bacantes, em 2001, e desde então virei admiradora absoluta dela. Elke passou de ídolo de infância a amiga num processo bem emocionante. Fizemos juntas (também com Denise) o show Intercontinental, com as músicas do disco de Itamar Assunção. Quis tê-las por perto de novo. E foi muito bom, um presente dos deuses.

Como você se sentiu quando a capa do Selvática foi censurada pelo Facebook?

Karina: Achei péssimo, machista, careta, limitador, censor, mas no fim acabou viralizando a capa, de forma totalmente inesperada e isso acabou na verdade sendo bom. A capa foi muito mais vista e compartilhada do que se não tivesse sido vetada.

Você está em uma posição de referência do movimento feminista. Quando e como você percebeu isso?

Karina: Desde criança fui tolhida e machucada diariamente pelo machismo e daí a isso se desenvolver até onde estou foi natural. Percebi desde a primeira vez que ouvi ‘isso não é coisa de menina’.

Qual a importância de trabalhar com essa mensagem?

Karina: A importância da minha vida, da vida das mulheres todas, que são oprimidas desde que nascem, em casa, na rua, no trabalho, são assassinadas com muita naturalidade por ex-maridos e namorados (‘com aplausos do público’). No caso do Brasil, não ter o direito sobre o próprio corpo quando são obrigadas a parir mesmo contra a própria vontade (e as pobres, maioria negra, morrem ou ficam com sequelas físicas e emocionais graves). É toda essa importância.

Como você avalia a representação feminina hoje musicalmente?
Karina: A representação feminina sempre foi muito forte o que falta é a mídia, extremamente machista, dar o devido valor. Não tratar como segundo plano, como ‘música feminina’ ou ‘música pra mulher’, tratar como gente, como são tratados os homens.

O que ainda falta para o movimento?

Karina: Falta muito. Podemos começar por legalizar o aborto no Brasil.

Todo artista precisa ser político?

Karina: Um artista é uma pessoa como qualquer outra. Todos têm obrigações sociais e políticas e cada um escolhe seu jeito de fazer ou de não fazer as coisas. Escolho fazer e existem várias maneiras de atuação. Basicamente, acho que todo mundo que tem algum tipo de privilégio tem obrigação de tentar diminuir diferenças sociais e agir politicamente junto com os que precisam, por sua vida, dessa ação. E isso vale para todos, não precisa ser artista.

‘Pra Frente o Pior’, um espetáculo que foge à obviedade

“Convocamos vocês para uma atividade em cumplicidade, para caminhar juntos de mãos dadas por muito tempo, experimentando sensações não óbvias a partir do óbvio, e talvez do inútil, sem sentir-se inútil”, convida Gyl Giffony, porta-voz da Inquieta Cia de Teatros, para assistir ao espetáculo Pra Frente o Pior. O grupo se apresenta no Theatro José de Alencar, no Centro de Fortaleza, nos próximos dias 21 e 28 deste mês de abril.

A criação é fruto da pesquisa “Um corpo em final de festa”, desenvolvida em interlocução com o coreógrafo Marcelo Evelin e com colaboração dramatúrgica de Thereza Rocha. A pesquisa teve parte de seu desenvolvimento realizada dentro do Laboratório de Pesquisa Teatral do Porto Iracema das Artes.

Pra frente o pior - Divulgação
Imagem: Luciana Gomes

Apostando no diferencial como modelo encantador, o artista Andrei Bessa, parte do elenco, diz que a dramaturgia inova ao ser “um processo criativo sem uma figura central na criação, ou seja, sem um encenador, diretor, dramaturgo ou coreógrafo. O espectador é convidado a ser um co-criador”.

“Ele nasceu de estudos e práticas relacionadas a uma dramaturgia que parte do corpo, ressoando além”, conta Bessa. “Esta característica dá ao trabalho uma referência transitória, explorando os limites de linguagens artísticas e suas convenções”. Além dele e Giffony, também fazem parte do espetáculo os artistas Andreia Pires, Geane Albuquerque, Lucas Galvino e Wellington Fonseca.

Porta-voz da Inquieta Cia, Gyl Gyffony falou ao Repórter Entre Linhas sobre a desenvoltura do espetáculo. Leia a conversa completa. E bom espetáculo!

Como nasceu a ideia do “Pra Frente o Pior”?

Gyl: A montagem surgiu de encontros iniciais entre nós da Inquieta, reuniões de planejamento e a clareza de um evidente desejo de iniciar uma nova pesquisa e possivelmente um novo espetáculo. Nós fomos identificando que essa característica nos era comum, em experiências diversas. A opção pela direção também coletiva veio depois, assim como o desejo de agregar mais três atores-encenadores, performers ao projeto, que no caso foram o Lucas Galvino, o Wellington Fonseka e a Amália Morais, posteriormente substituída pela Geane Albuquerque. Estava com a gente também no começo a Themis Memória, além do Silvero que, ambos, por agenda não puderam continuar.

Dessa decisão por um processo de criação coletiva, todos nós dentro de sala de ensaio lançamos diferentes proposições, até chegarmos a um germe criativo que teve como enunciado “um corpo em final de festa”, esse foi o dispositivo para a criação.

À época, optamos por participar do Laboratório de Pesquisa Teatral da Escola Porto Iracema das Artes, mas o início do trabalho é anterior. Foi adensado e revisto pelos encontros na Escola, principalmente com a equipe do processo de pesquisa e montagem, como Marcelo Evelin, Thereza Rocha, Uirá dos Reis, Isac Bento e Caroline Holanda.

Como assim o espectador é um co-criador? Ele participa do ato (é ator)?

Gyl: O espectador é um agente compositor por meio do seu olhar e da sua construção própria, porque é impossível dimensionar capacidades e visões. A integração e participação da cena não se dá por uma convocação efetiva à participação por meio de uma interação, mas um convite já de início ao estar junto, na construção do olhar e das leituras possíveis entre quem faz e quem vê.

Por que apostar em uma referência transitória? Como o público reage à novidade?

Gyl: A meu ver, também semelhante a outras dramaturgias, nesse trabalho emerge uma forte ideia de “dramaturgia de possíveis”, que pode talvez este em uma abertura pulverizada sobre o que a obra trata. Um dinamitar da referência narrativa, a desestabilização de uma história ou mensagem. Uma proposição para, no estar no presente, no efetivo fazer e ver a cena, cada um possa contar, fazer, construir sua feitura ou visão sobre o acontecimento, sobre a obra artística apresentada. A possível novidade de insistir ou fazer o mesmo, de esgotar o mesmo, até achar, quem sabe, a inutilidade, até sentir que o repetir não é só redundante. São muitos possíveis a cada noite, a cada encontro, a cada apresentação.

No repertório da companhia também está o espetáculo Metrópole, já discutido pelo grupo aqui no Repórter Entre Linhas.

Serviço

Quando: Dias 14, 21 e 28 de abril às 19 horas
Valor: R$ 20 (inteira) / R$ 10 (meia)
Local: Theatro José de Alencar (R. Liberato Barroso, 525 – Centro)
Ingressos on-line: http://migre.me/tpblr
Contato/Theatro José de Alencar: (85) 3101.2564/2567

Por Glauber Sobral
antonioglaub@gmail.com