A desconstrução do Repórter

O começo da história de um escritor é quase sempre parecido. A escrita costuma surgir na escola, resultado nas aulas de redação. Inconscientemente, o hábito aponta um caminho. Para muitos, leva ao jornalismo, que para alguns é uma espécie de preparação para a literatura.

“É uma mistura de amar ler”, explica, “querer fazer algo daquele jeito, ter muitas ideias que morreram por falta de coragem para começar a escrever literatura e incentivo de gente bem-sucedida e que eu admiro”. Ele identificou a necessidade de uma nova carreira quando o jornalismo começou a “afundar”. “Enfrentei o monstro e não parei mais”.

Fábio M. Barreto já passou pelas principais redações do país, até que decidiu reconstruir sua vida no exterior. Estudou cinema em Los Angeles, é escritor e roteirista, mentor literário no projeto Escreva Sua História e tradutor profissional. Seu romance de estreia, “Filhos do Fim do Mundo” (2013), é vencedor do Prêmio Argos de Literatura Fantástica. Não bastasse, chegou a ser o livro mais vendido no Brasil na categoria Suspense, na Amazon, e o segundo em Ficção Científica, no último mês.

Fábio M. BarretoE os planos são muitos. Barreto está na fase final de “Snowglobe”, seu novo romance, além de trabalhar em um roteiro de terror para o cinema e na adaptação de “Filhos do Fim do Mundo” para a TV. A tradução de “Lugar Nenhum”, de Neil Gaiman, foi entregue na última semana.

Nesta entrevista ao Repórter Entre Linhas, o autor, repórter de entretenimento desde 1996, discute o tal jornalismo, fala sobre a transição da carreira anterior para viver como escritor na terra do cinema e sobre seu premiado trabalho na literatura. “Foi só questão de me ver inserido num lugar que vive do cinema, que leva o cinema a sério e que tem dinheiro para investir na arte”.

Sabe, escrever é um caminho, não uma finalidade. E esse caminho sempre envolve crescimento, aprendizado e provocação. (…) Não é fácil escrever, leva tempo, mas tudo é sanado com dedicação e a consciência da qualidade real do que você faz”. – BARRETO, Fábio M.

Comecei a acompanhar seu trabalho na revista Sci-Fi, e você também passou pelas maiores redações do país. Como foi a transição do jornalismo para a carreira de escritor nos EUA?

Fábio: Foi meio forçada e abrupta. Quando o mercado começou, de fato, a afundar, as revistas começaram a fechar com velocidade surpreendente. Metade das revistas da Editora Abril para quem eu contribuía fecharam, a outra parou de contratar freelancers por conta de cortes de custos. Aí meus próprios contatos começaram a ser demitidos e tudo foi ficando distante. Hoje em dia, os editores sequer respondem e-mails com ofertas de “freela”. Afinal, o que vale é conhecer, ou não, o remetente. Essa nova geração está trazendo os amigos consigo, o que é plenamente aceitável, então é difícil entrar na panela de novo. Por conta disso, fui estudar cinema e roteiro. Fiz faculdade de cinema aqui em LA, comecei a escrever roteiros e aí percebi que já sabia o suficiente para me arriscar na literatura, afinal, é tudo uma questão de estrutura e ligar o ponto A ao ponto B, coisa que o cinema executa com perfeição. Em coisa de dois anos, migrei quase totalmente para a literatura, o roteiro e os bastidores dos dois mercados. Sempre gostei de editar e o editor nada mais é do que um guia para o trabalho de gente talentosa. E meio que fazia tudo isso quando trabalhei como editor literário e jornalístico, então é um novo jeito de fazer coisas velhas. Adoro, mas, assim como o jornalismo, paga pouco.

Como surgiu a ideia para escrever “Filhos do Fim do Mundo”?

Fábio: Queria estrear com um romance impactante, arriscado e que mostrasse serviço logo de cara. Sou muito chato com o que escrevo, demoro muito para acreditar que esse ou aquele trecho estejam bons, e arrisco muito. Escrevo ficção científica e isso, por si, já é um risco gigantesco, então, tenho que forçar os limites. Mesmo que isso deixe as pessoas desconfortáveis e insatisfeitas.

filhos do fim do mundoSei lá, a arte é assim. A arte precisa provocar, incomodar, fazer pensar. Odeio enlatados, então fugi deles. Ao mesmo tempo, resolvi aplicar muito do aprendizado com roteiro na questão de estrutura e tentei algo bacana: um livro baseado em ações, não em páginas e páginas de fluxo de consciência, com o personagem revelando tudo que pensa. Gosto de pensar, mas sempre penso na relevância das minhas ações. Como elas afetam minha vida? Quão importante elas foram no passado? Pense assim: você pode pensar por anos sobre tal assunto, mas, no final, o que conta… tudo que você pensou ou a ação resultante disso? O mundo lá fora não sabe das suas razões, o mundo lá fora vai julgar suas ações.

Coloquei tudo isso no papel, peguei um dos bastiões da ficção científica – fim do mundo -, descobri qual seria meu medo mais aterrorizante e comecei a escrever. Foi mais ou menos assim. :p

Você teve uma excelente estreia, tanto que o livro chegou a ser premiado. O que mudou na sua vida depois da publicação?

Fábio: A maior mudança foi ter me transformado num eterno divulgador e, sem querer, exemplo para muita gente. Isso acarreta em duas coisas, às vezes gasto mais tempo vendendo o peixe do que construindo o próximo barco. E também dedico um bom tempo a ajudar as outras pessoas, tanto que criei o curso http://www.escrevasuahistoria.com para poder ajudar as pessoas que sonham em ser escritoras, mas nunca tiveram o incentivo que eu tive e precisam da ajuda/guia que eu sempre procurei, mas nunca achei, a escreverem.

Sabe, escrever é um caminho, não uma finalidade. E esse caminho sempre envolve crescimento, aprendizado e provocação. Esse lance todo de ficar famoso, rico e tal é balela para enganar gente desesperada. Não é fácil escrever, leva tempo, mas tudo é sanado com dedicação e a consciência da qualidade real do que você faz.

Outra coisa que muda é a compreensão de que o próximo livro sempre deve ser melhor, que a fama é ilusória e que as páginas devem falar mais alto que você, mais alto que sua conta no Facebook e mais alto que seus seguidores no Youtube. Isso é importante? Sim. Mas sem um bom livro, você só cria forma, não substância.

Por que se referir aos personagens ao que fazem, como uma característica marcante, e não por nomes especificamente?

Fábio: Isso aconteceu para resolver um problema e cumprir uma demanda narrativa. Os nomes que escolhi não cabiam, de jeito nenhum. Nada parecia bom, aí fui estudar o motivo e a resposta foi a seguinte: aquela história era universal, ela não tinha um lugar específico, pois poderia acontecer em qualquer lugar, logo, se eu chamasse o protagonista de Pedro, isso informaria muito sobre o lugar de origem dele, assim como os demais. Compreendendo o problema, veio a decisão de retirar os nomes, o que aumentou o desafio do ponto de vista da redação, mas eu sabia que era possível, afinal de contas, o Saramago havia feito isso com maestria em “Ensaio sobre a Cegueira”. “Filhos” não tem quase nada a ver com “Ensaio”, alias, foi até uma homenagem minha a um cara que me ensinou tanto.

Como foi a recepção do público a essa dinâmica?

Fábio: Muita gente gostou, recebi muitas mensagens de gente que se sentiu transformada, questionando alguns aspectos da vida depois de ler, e que entendeu meu objetivo com aquela parte arriscada que comentei. Foi bacana. Por outro lado, e isso acontece com todo mundo, vieram pedradas, ofensas, pedidos de retirada do livro do mercado, gente detonando todas as minhas gerações por ter ficado “insatisfeita” com o final ou a quantidade de informações oferecida. Tem de tudo. Você aprende a lidar com todas elas, afinal, tanto o elogio quanto a crítica em excesso pode te colocar em caminhos duvidosos nos próximos trabalhos. Não sou perfeito e nem “o melhor escritor brasileiro de todos os tempos” – e acredite, ouvi isso – , mas tenho plena consciência de que não sou lixo. É preciso entender seu lugar nessa dinâmica e, como em qualquer outra profissão, continuar trabalhando. E sempre melhorando, ou, pelo menos, mantendo o nível do título anterior.

Por que o protagonista é um repórter? Tem muito de você e de suas experiências em redações nele?

Fábio: Bastante. Resolvi ecoar várias experiências, aspirações nunca realizadas, sonhos, frustrações e um pouco daquela raiva embutida por alguém que está vendo a profissão desaparecer. Escrevi “Filhos” quando o jornalismo começou a mostrar problemas, então foi meu modo de lidar com esse fim da linha, de tentar entender como minhas ações haviam contribuído, ou não, para eu estar entre as baixas do mercado e como as próximas decisões seriam compreendidas. A cena do Repórter tentando arrombar a porta do cockpit da Adaga é a mais assustadora do livro, para mim, pois confrontei um grande medo ali. Até que ponto um jornalista é egoísta o suficiente de arriscar tudo à sua volta para “conseguir a matéria/o que quer”? Aquilo foi poderoso para mim e nem sei quantas pessoas notaram isso, mas livros são assim, cheios de gemas que fazem todo sentidos para uns e servem de batente de porta para outros. E ninguém está errado na escolha, pois ela é subjetiva mesmo.

a velha casa o céu de lilly

a invasora

Você chegou a afirmar que está desenvolvendo roteiros para uma série de TV baseada no livro. Como está esse processo?

Fábio: Ainda estamos em desenvolvimento. O canal que estava interessado inicialmente pulou fora e perdemos um outro membro da equipe, mas ele já foi substituído e voltamos à estruturação do roteiro. Tomei uma decisão executiva de mudar todo o foco inicial e fazer uma história “inspirada” em “Filhos”, em vez de “baseada”. Ou seja, mesmo plano de fundo, dinâmicas diferentes. Acredito que tenhamos notícias até o final do ano, mas Hollywood é assim. As coisas parecem estagnadas até que tudo acontece a toque de caixa e, plim, se torna realidade.

Qual a influência do realismo fantástico latino americano na literatura fantástica brasileira?

Fábio: No aspecto mais geral, não tão grande. A Literatura Fantástica Brasileira ainda bebe muito na fantasia clássica e no que o G.R.R. Martin tem feito, além de se auto-influenciar com o trabalho do Vianco, Spohr e Draccon. O que os realistas fantásticos fazia tem muito mais ligação com o que o Neil Gaiman faz, com o Stephen King (em algumas obras), e outros autores mais preocupados com a natureza especulativa da vida, com o que aconteceria se um determinado elemento fosse fantástico/fora do comum. A Ficção Científica também vai para os extremos, tira tudo do lugar, inventa novos lugares, sempre tendo as demandas atuais como base, mas sempre passa muito longe dos realistas.

Gosto de pensar que tenho um pouco dos realistas, mas acredito que minha mão fique mais pesada do que deva e eu tenha a tendência de transformar mais do que um ou dois elementos, mas não cabe a mim julgar. Talvez até por isso a Literatura Fantástica ainda seja quase totalmente ignorada pela grande imprensa e execrada pelo meio acadêmico, afinal, a gente escreve com ritmo, força e objetivos que vão além da perfeição gramatical ou exacerbação dessa ou daquela escola de pensamento. Essa geração atual conta histórias que o povo quer ler. Talvez nisso, os realistas e os Fantásticos Brasileiros estejam em sintonia. Queremos fazer a diferença, ver o mundo por outra ótica.

Qual a importância de lançar os contos na plataforma digital?

Fábio: Gigantesca, pois mantenho o leitor abastecido enquanto outros romances não saem. Virou uma plataforma de sustentação.

Podemos esperar um livro com a coletânea desse material?

Fábio: Futuramente, sim. Por isso cada conto publicado até hoje tem um selo próprio. Pretendo lançar cada uma delas em formato de coletânea quando, finalmente, encontrar uma editora parceira e pronta para trabalhar o meu material. Não é fácil desenvolver, embalar e vender Ficção Científica e Especulativa no Brasil. Atualmente, apenas a Darkside e a Aleph sabem como fazer isso em grande escala. Torço para que outras sejam bem-sucedidas nessa empreitada, pois a produção nacional é vasta e muito boa. Precisamos dar vazão e nem falo em causa própria. Caras como Gerson-Lodi Ribeiro, Octavio Aragão, Carlos Orsi e Fábio Fernandes deveriam ser publicados por diversas editoras, especialmente as grandes. A qualidade deles é inquestionável.

Fábio M. Barreto com o autor britânico Neil Gaiman
Fábio M. Barreto com o autor britânico Neil Gaiman

Essa geração atual conta histórias que o povo quer ler. Talvez nisso, os realistas e os Fantásticos Brasileiros estejam em sintonia. Queremos fazer a diferença, ver o mundo por outra ótica”.

Você acredita que todo escritor pode ser roteirista?

Fábio: É uma adaptação de formato. Se o cara se encaixar nele, claro. O roteiro é econômico, dependente do encadeamento de ideias e dos diálogos e, acima de tudo, das ações. Ações dizem tudo, pois, no cinema, você precisa “Mostrar não contar”. A literatura tem essa necessidade de falar muito, já o cinema, quanto menos puder ser dito e mais puder ser transmitido pela imagem, melhor. É uma questão de objetivos de vida e de dedicação, pois o roteiro em si é uma forma de arte cheia de minúcias. Mas, dentre todas as profissões, o escritor é o que mais se encaixa na função de roteirista. E o Brasil precisa URGENTEMENTE de bons roteiristas. Quase ninguém sabe escrever cinema com alto nível por aí.

Você aposta agora no jornalismo independente. Como está sendo essa nova caminhada?

Fábio: Bem difícil. Faço pela dedicação e paixão, e para tentar colocar comida na mesa, mas nenhum negócio se mantém sem investimento. E, no modelo de negócios atual, as empresas só investem no seu negócio se você for famoso, tiver trilhões de seguidores e um podcast engraçadinho. Espero que dê certo, mas cobrar diretamente por informação funciona muito pouco.

O curso era realmente algo que você queria fazer ou foi uma decisão estratégica?

Fábio: Queria muito fazer desde 2012, mas tudo nele me assustava. Não ter “relevância” suficiente para fazer, nunca ter ensinado online (deu aula de inglês por 3 anos no Brasil), não saber como monetizá-lo e ter um medo absurdo de parecer arrogante na tela. Isso me apavora. Eu tenho um jeito bem direto e sincero. Escrevo como falo e falo como escrevo. Nunca fui muito de puxar o saco, então, especialmente no Rapaduracast (podcast do portal Cinema com Rapadura), muita gente vê isso como arrogância. Sei lá, tenho orgulho do meu trabalho, pois faço por merecer. Acredito que falta isso no brasileiro, sentir mais orgulho e trocar a tal “síndrome do cachorro pequeno” por essa coisa horrível chamada orgulho. É bom se valorizar. Te faz querer mais e avançar. Enfim, muitos medos.

Aí, comecei a estudar as novas formas e uma amiga me apresentou a uma série de cursos online sobre outros assuntos, e pensei: é agora. Peguei os rascunhos do conteúdo, falei com alguns jovens escritores no perfil que quero pegar, confirmei que mais ninguém estava fazendo nisso – nem mesmo o Governo – e bati no peito para pegar essa responsabilidade: vou ajudar uma nova geração! Ainda está no começo, vamos ver qual será o final dessa história.

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