Outros Tempos, de Leonardo Nóbrega

Ninguém conhece realmente as pessoas, não conhecemos nem a nós mesmos. Conhecemos somente o que está na superfície e os outros conhecem, quase sempre, apenas o que permitimos”. (pág. 152)

Publicação independente, 2013.
Premius Editora, 2013.

Nascido na década de 1960, Leonardo Nóbrega parece o tipo nostálgico que sente falta daquilo que não viveu. “Outros Tempos”, seu romance de estreia, já começa descrevendo ações, personagens e momentos como se o autor tivesse puxando de sua memória afetiva. O estilo é uma espécie de aviso: pode chegar junto, leitor, no aconchego dessas páginas nós vamos voltar no tempo.

Com a capital do Ceará como plano de fundo, retornamos, dos dias atuais, para 1942. O jornalista Ulisses, em uma cidade com ares de Paris, acaba se envolvendo em uma série de eventos relacionados à Segunda Guerra Mundial, com, até mesmo, uma célula nazista instalada no Brasil.

A narrativa é uma aventura pela Fortaleza antiga, passando por lugares conhecidos por cearenses e revisitando a História. Nóbrega lembra de uma Praça dos Mártires divida por classes sociais, além de servir como palco para execuções na Confederação do Equador. A Praça do Ferreira, um dos principais cartões postais, também aparece de forma recorrente, já que é endereço do Diário Alencarino, local de trabalho do protagonista.

A trama começa devagar, situando o leitor no contexto da época, e se desenvolve com mais intensidade no meio do caminho para o clímax. A partir de então, o autor demonstra maior domínio pelo plot que propôs no início, apelando, no bom sentido, para a memória afetiva do cearense. Um dos exemplos mais fortes é o caso do Cão de Itaoca, lenda urbana passada por gerações. Se por um lado isso ajuda a desencadear a empatia do leitor conterrâneo, pode não afetar da mesma forma outros públicos, mas ajuda a apresentar essas particularidades.

Descobrir aos poucos como o escritor trabalha temas como espionagem e o contexto de guerra em terras alencarinas é o mais divertido, diga-se de passagem. A dinâmica escolhida com os capítulos curtos ajuda a segurar o leitor como quem domina o tempo que rege o enredo. Dessa forma, Nóbrega mostra que há tempo para tudo. Até para descobrir quem as pessoas realmente são.

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2 comentários sobre “Outros Tempos, de Leonardo Nóbrega

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